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O Livro que me fez marchar com o exército!

  • filomenalepecki
  • 28 de ago.
  • 3 min de leitura

Atualizado: 30 de ago.

Em 1999, minha carreira na oftalmologia seguia forte no RJ. Palestras em congressos, agenda lotada, cirurgias. Como assistente de um grande profissional, cada vez mais eu me especializava em córnea e lentes de contato complicadas. Mas lá no fundo, o desejo de escrever um livro passado na guerra do Paraguai, assunto que eu já havia pesquisado na USP anos antes, permanecia.


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Além de um desejo, (um ‘chamado’?), às vezes o que um escritor precisa para romper a inércia é uma ajudinha da própria vida. Não fosse por mais uma transferência familiar, dessa vez para Vinhedo, interior de São Paulo, talvez eu nunca tivesse parado tudo para escrever...

Logo na primeira semana de casa nova abri o jornal de domingo e na aba cultural estava destacado e em cores, uma marcha (a pé mesmo) cívico-cultural que iria acontecer em MS para reverenciar os heróis da ‘Retirada da Laguna”, episódio icônico da Guerra do Paraguai. Senti o universo conspirar a favor... Logo consegui a adesão de um tenente e segui para o MS.


Foi uma aventura. Aventura mesmo! Dormir as 2 primeiras noites no quartel de Bela Vista em alojamentos de soldados, acordar às 5 hs sob cornetas, comer o ‘rancho’ matinal, hastear bandeira, cantar o hino. Tudo tão distante para alguém que não tinha nenhuma familiaridade com o ambiente militar. Mas super útil, para quem iria se ‘meter’ a narrar uma guerra... A guerra mais sangrenta das Américas!

 

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Saímos de ônibus no primeiro dia para o Paraguai para conhecer a Fazenda da Laguna, na época da guerra de propriedade de Solano López, de onde as tropas brasileiras iniciaram um retraimento militar em 1863, muito sofrido, que culminou no episódio conhecido como ‘A Retirada da Laguna’ descrito pelo Visconde Taunnay, que participou do evento e que mais tarde publicaria um livro com o mesmo nome. Este livro é republicado continuamente até hoje pela Escola Militar Francesa como exemplo, em toda a história da humanidade, de um episódio de retraimento militar sob condições, as mais adversas.


Para me acompanhar nessa marcha convidei a historiadora dra. Maria de Lourdes Lyra, sócia titular do IHGB, para participar. Ficamos no segundo ônibus, o que respirou toda a poeira vermelha do primeiro naquelas estradas do Paraguai. No terceiro dia minha companheira de marcha foi abatida por uma pneumonia e forçada a voltar para casa. Quis acompanhá-la, mas ela insistiu com veemência para que eu ficasse e escrevesse o livro.


E eu escrevi. O livro “Cunhataí- um Romance da Guerra do Paraguai” foi publicado, republicado, ganhou 3 prêmios e foi estudado em várias teses acadêmicas. Agradeço até hoje à Lourdinha por isso e pelo lindo prefácio da edição revisada de 2023. Levei 3 anos pesquisando em bibliotecas, trocando documentos com militares e entusiastas que conheci na marcha, e depois de muitas vivências, terminei o livro a tempo de participar do concurso da Fundação Conrado Wessel de Literatura. E consegui vencer o prêmio. O universo realmente conspirou a favor...


Sou grata pelas insolações do meio-dia e pelo frio das madrugadas; pelos banhos com as outras 9 mulheres sob 1 minuto de água gelada em tendas improvisadas enquanto a tropa de 80 soldados esperava a vez em fila; pela dificuldade de caminhar 25 km por dia; pela fome quando perdi o jantar por ficar conversando; pelo medo dos barulhos e assombrações da noite; pela dificuldade com banheiros cavados no chão e os arranhados nos caraguatás. Mas também por conhecer a camaradagem entre os companheiros de marcha; pelas cantorias de violão; pela imersão num cenário magistral com horizontes infinitos; por ouvir os marrecos, tuiuiús, tucanos; por provar as frutinhas e atravessar os riachos.


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O que mais me impressionou foi o céu noturno. Nos confins daquelas terras, que os fazendeiros nos deram permissão para atravessar, longe de tudo, e depois que as fogueiras se apagavam, eu saía da barraca feminina e olhava o céu: era mais branco que preto! Essa descoberta do céu ser tão estrelado e a gente nem se dar conta, é uma imagem/ metáfora que carrego sempre e costumo repetir em todos os livros: o de existir muito mais ao nosso redor do que a gente imagina. O tanto de possibilidades que igualmente podem estar por aí nos esperando, numa noite escura, como a imensidão das estrelas...


Essa marcha forjou também a escritora pesquisadora de campo que procuro ser até hoje. Sinto essa necessidade de pesquisar em arquivos e conhecer os espaços para escrever. Acho que se tornou um estilo. O próximo livro já está sendo pesquisado com foco na participação brasileira na Primeira Guerra Mundial. Vamos juntos? 


Maria Filomena Lepecki

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